Meu nome é Marcelo e sou aluno do curso de letras da UFPR.
Fiquei sabendo do seu trabalho e achei que poderia ser interessante pedir sua ajuda breve num folheto que estou fazendo para uma disciplina de literatura brasileira na Universidade.
Você vê alguma relação entre o movimento de poesia maloqueirista e o de poesia marginal? Você conhece algum movimento que hoje ainda se intitule "marginal"? Você acha que a poesia maloqueirista é influenciada pelos ideais e pelas obras dos marginais?
Valeu desde já!
(Ah, e a sua resposta, caso for dá-la, pode ser bem breve, até porque preciso terminar este folheto até a quinta-feira próxima)
Caco Pontes to Marcelo show details Oct 26 to MarceloOi, Marcelo
Então, creio que inevitavelmente a gente acabe recebendo esta herança marginal da geração mimeógrafo, especialmente do cenário carioca que fervilhava e toda uma leva de gente que festejava a poesia com o corpo e a apoteose, consequentemente.
Quando começamos a difundir nosso trabalho, que na época acho que nem tinha esse compromisso, pois tratava-se somente de estado de espírito, sem pretensão de se equivaler ou assumir tal postura, já carregávamos essa identidade dos marginais setentistas indo p/as ruas com os livretos de poesia, fazendo intervenções performáticas em bares e praças públicas, mas sem a influência direta dos figuras que nos antecederam neste contexto. A referência foi surgindo aos poucos, mas não acho que isto deva ter legitimado nossa trajetória, talvez uma quase coincidência, devido ao fato de a cada geração surgir sempre um paralelo ao que veio antes, vide Manguebeat ser comparado ao Tropicalismo, por exemplo. Nos anos 80 rolou um movimento mineiro forte de poesia performática também e em seguida, nos anos 90, o CEP 20.000, do mesmo Chacal - que já vinha representando sua geração carregando este termo "marginal" - em parceria com Guilherme Zarvos, arrematando e suscitando muitas figuras que viriam desenvolver a partir de então, diálogos com a arte da poesia, tais como Michel Melamed, Viviane Mosé, Pedro Luís e tantos outros. Quando descobrimos isto, no início do século, também contribuiu bastante para a criação de uma identidade com a poesia na sua forma de expressão oral, considerando que vínhamos de uma geração anos 90 que viu o rap nacional explodir e teve a possibilidade de reconhecer cada qual sua própria verborragia, reflexão e denúncia, através daquela prosa poética seca e direta, trazida a tona por grupos como Racionais Mc' s, RZO, Consciência Humana etc.
E sobre existir o termo marginal ainda nos dias de hoje, pode crer que rola sim, mas com outras referências, com base na literatura de favela, surgida nos guetos e periferias, como fez o Ferréz com a coleção intitulada Literatura Marginal, lançada através da Revista Caros Amigos, também do início do século. Paralelamente surge o termo Literatura Periférica, legitimando este tipo de produção, abrangendo autores como Allan da Rosa, Sacolinha, Alessandro Buzo, Dinha e o pioneiro Sérgio Vaz, fundador do tradicional Sarau da Cooperifa, que reúne de forma intensa, semanalmente, pessoas pra declamar e ouvir poesia, num boteco de periferia na grande são paulo.
Abaixo te envio um texto que precisei enviar recentemente para fins de uma matéria ao jornal Boletim do Kaos, onde discorre-se um pouco sobre a trajetória da Poesia Maloqueirista.
Valeu!
Poesia MaloqueiristaA Poesia Maloqueirista nasceu em 2002, a partir do encontro de poetas que veiculavam seus livretos artesanais pelas ruas. Assim, passou a gerar um diálogo essencialmente mambembe, indo aonde o povo está, tradição esta que sempre resistiu aos meios de comunicação padrão. Passou a criar identidade em sua produção literária-artística a partir da vivência cotidiana na cidade, interagindo com todo tipo de transeunte, além de intervenções e assaltos culturais em praças públicas e bares, reunindo poetas como Berimba de Jesus, Caco Pontes, Pedro Tostes, Aline Binns, Renato Limão, Inayara Samuel, Maurício Marques, Aline Reis, entre outros, advindos das mais variadas regiões sub-urbanas de São Paulo, ou mesmo do Rio de Janeiro, onde se aliou a movimentos como Filé de Peixe e Ratos di Versos.
Acompanhando também a trajetória dos saraus espalhados pelas vilas e guetos de SP, o coletivo fortaleceu a corrente tendo como característica uma pegada nômade, com traços de terrorismo poético, irreverência e denúncia, sem levantar bandeiras específicas. Desde então mantém uma proposta multifacetada, sendo a poesia base de linguagem, abrindo o campo de criação e troca de experiências desenvolvendo sarau, oficinas, eventos multimídia, banda, possibilitando assim uma popularização maior da poesia. Alguns acontecimentos já se tornaram clássicos, como Revista Não Funciona, C.A.I-MAL (Centro de Ação In-formal), Interferência Modulada, ÓperArua, Orquestra Megafônica e Experimento Prosótypo. Atualmente o coletivo mantém atividades no bairro do Morro do Querosene, Zona Oeste de SP e desde maio acontece mensalmente a Récita Maloqueirista, no Espaço dos Parlapatões, Pça.Roosevelt, com a idéia de centralizar um sarau que possa reunir pessoas de regiões variadas, além da comunidade local, buscando diversidade e entretenimento.
Mais informações, acesse:
poesiamaloqueirista.blogspot.com2009/10/26 Marcelo Liberato de Souza
<mls_41@yahoo.com> - Show quoted text -